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A ASA e as Cisternas de PVC


ASA divulga imagens de cisternas de plástico deterioradas por chuva

Imagens divulgadas pela assessoria de comunicação da ASA (Articulação pelo Semiárido) mostram cisternas de plástico fabricadas pela Acqualimp e implantadas pela Codevasf com deteriorações causadas, assume-se, pela exposição ao sol e por fortes chuvas.

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                                           crédito: ASACOM
Tratam-se de duas cisternas de plástico PVC do programa Água Para Todos, ambas instaladas no município cearense de Cedro. A Codevasf pronunciou-se por meio de nota oficial dizendo que as duas peças possuíam defeitos de fabricação e por isso sofreram afundamentos na parte superior. Ela afirmou também que as cisternas defeituosas foram substituídas no mesmo dia da instalação. As causas do defeito estão sendo investigadas.
 
As imagens estão sendo divulgadas pela internet acompanhadas de um artigo de Roberto Malvezzi, o Gogó, assessor da Comissão Pastoral da Terra. "As cisternas de plástico, para as quais o governo garantiu duração de 15 anos, não resistiram três meses sob o sol e as chuvas do sertão", afirma o artigo.


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                                           crédito: ASACOM e Portal Luis Nassif
 

A ASA e as Cisternas de PVC

Desde dezembro do ano passado, cisternas feitas de plástico PVC estão sendo construídas no semiárido como parte do Programa Água Para Todos, do governo federal. Elas são financiadas pelo Ministério da Integração Nacional (MI). 
 
A ASA é constituída por um conjunto de organizações sociais que trabalham na construção de cisternas feitas de concreto. O grupo se opõe ao uso do plástico como matéria-prima das cisternas, alegando que o produto exclui a população local do processo de implantação da cisterna e pode trazer de volta a chamada "indústria da seca", ou seja, que a implantação de cisternas seja usada como moeda política. No caso da cisterna feita de placa de concreto, afirma a ASA, a população apropria-se da tecnologia para construir e remendar eventuais estragos nas cisternas e não fica refém da doação de políticos.
 
A mais de dez anos de atuação no semiárido, a Articulação do Semiárido Brasileiro – ASA, desenvolve o programa de formação de mobilização social para convivência com o semiárido através dos Programas Um Milhão de Cisternas - P1MC e Uma Terra e Duas Águas – P1+2.

A metodologia de execução dos programas congrega ações de mobilização, capacitação e intercâmbios de troca de experiências entre as famílias beneficiadas. Essa metodologia envolve as famílias em todas as etapas de execução, inclusive no processo de construção das tecnologias sociais de captação e armazenamento de água da chuva, garantindo maior transparência, controle social e eficácia na aplicação dos recursos, garantindo a construção coletiva da cidadania no semiárido brasileiro.

Recentemente o Governo Federal noticiou a implantação de cisternas de Plástico PVC em substituição às Cisternas de Placa, transferindo a execução das ações para os governos Municipais e Estaduais, excluindo a Sociedade Civil da execução de uma política criada por ela própria através da ASA.

Reafirmamos que somos contra a essa medida impensada do Governo Federal.

SOLUÇÃO OU ARMADILHA?


Durante muitos anos, o Semiárido foi apresentado e tratado como inviável e um entrave ao crescimento econômico e social do País. Uma região onde as pessoas não sobreviveriam sem ajuda externa e eram consideradas incapazes de assumir seus destinos.
Essa ideia, construção simbólica, não foi despretensiosa, nem pode ser associada à natureza ou às pessoas que vivem no Semiárido. O que se sedimentou é uma construção política, atribuindo todas as dificuldades a Deus ou à natureza. Esse pensamento sempre teve um objetivo claro: beneficiar poucos e manter o poder de dominação da elite, gerando subalternidade.
Associada à falta de água, a solução apontada pela política de combate à seca foi sempre de cunho milagroso: um grande açude, uma grande barragem, a transposição do rio São Francisco, uma grande adutora. Na história recente, no plano dos governos federais, tivemos:

1972 - PLANOS DE AÇÃO PARA EMERGÊNCIA CONTRA AS CALAMIDADES PÚBLICAS DE SECAS E DE ENCHENTES (Ministério do Interior/Sudene)
1979 - PLANOS DE AÇÃO PARA EMERGÊNCIA CONTRA AS CALAMIDADES PÚBLICAS (Ministério do Interior/Sudene)
1979-83 - AÇÃO DO GOVERNO FEDERAL NO COMBATE AS SECAS DO NORDETE (Ministério do Interior/Sudene)

Essas ações ficaram nacionalmente conhecidas como as responsáveis pela famigerada Indústria da Seca.
Numa outra perspectiva, nessa mesma região, a partir do envolvimento das famílias em torno de tecnologias simples, baratas e de grande impacto,gestadas a partir dos conhecimentos e das práticas das comunidades, foram sendo construídas cisternas de placas. De algumas dezenas, passaram para centenas e hoje são cerca de 500 mil reservatórios. Uma revolução silenciosa, resultado de uma ação conjunta da sociedade civil organizada, dos governos federal, estaduais e municipais e de vários outros parceiros, inclusive bancos e empresas.
Assim, gradativamente foi crescendo a perspectiva da política de convivência com o Semiárido.
Hoje, o Brasil, a partir da efetivação do Programa Água para Todos, no contexto do Plano Brasil Sem Miséria, pode finalmente comemorar a decisão governamental de universalizar as cisternas, pôr fim à Indústria da Seca e garantir água de qualidade a todas as famílias rurais do Semiárido. Decisão que veio para valer e
Parece-nos, no entanto, estranho e inaceitável que, neste contexto, as cisternas de plástico/PVC surjam como alternativa para o semiárido, uma vez que excluem a população local, não permitindo a sua participação no processo de reaplicação da técnica, criando dependência das empresas.
Efetivamente, o sucesso da ação da ASA através do Programa Um Milhão de Cisternas está na participação das famílias como protagonistas de sua história. No fazer e ser parte do processo.
Nesse contexto, nós, famílias agricultoras e organizações que fazemos a ASA, não nos consideramos as donas da tecnologia, e nem as únicas envolvidas neste processo . No entanto, nos sentimos no dever e no direito de alertar o governo e a sociedade brasileira sobre os efeitos negativos das cisternas de plástico/PVC.
Por fim, queremos ser ouvidas, participarmos e sermos corresponsáveis pela construção e gestão da política de convivência com o Semiárido.


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