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Boulos: "Queremos uma aliança com o povo, e não com o MDB'

Pré-candidato à Presidência pelo PSOL é o segundo convidado da série de entrevistas de CartaCapital com concorrentes deste ano




José Cícero da Silva
Guilherme Boulos em campanha
Foto: José Cícero da Silva
Candidato divide agenda programática da campanha com a dos movimentos sociais, que é sua origem

Ao longo de 2017, o flerte entre o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Guilherme Boulos, foi paciente, mas insistente.
Boulos já aparecia anos antes na cena pública com a figura do líder de movimento social combativo, e na medida em que cenário político se adensava com a Operação Lava Jato e a deposição da ex-presidente Dilma Rousseff, suas aparições se tornaram cada vez mais constantes e relevantes dentro da esquerda, inclusive a partidária. 
Embora tenha sofrido resistência de uma das frentes do PSOL, Boulos lançou sua candidatura à presidência no dia 3 de março ao lado da líder indígena Sônia Guajajara e da cúpula psolista.
Onze dias depois, a vereadora carioca Marielle Franco - que esteve presente no lançamento da candidatura -, foi executada no centro do Rio de Janeiro. Os esforços que seriam para a campanha voltaram-se todos para a morte da parlamentar, cuja investigação policial segue sem desfecho.
Treze dias após a morte de Marielle, a caravana do ex-presidente Lula pelo Sul do país foi alvo de uma emboscada, e tiros atingiram um dos veículos no trajeto entre Quedas do Iguaçu e Laranjeiras.
Boulos mais uma vez abriu mão de sua agenda como candidato para fazer a defesa contra o que considera um avanço neofascista no Brasil. "As pessoas precisam entender que isso é um ataque a todos, ao estado de direito, a democracia", afirma. 
Dez dias após o atentado, a Polícia Federal levou Lula do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para Curitiba, cumprindo o mandado de prisão expedido pelo juiz Sérgio Moro. Mais uma vez Boulos interrompe sua pré-campanha e vai para o front da política nacional no que ela tinha naquele momento de mais relevante. Fica ao lado de Lula o tempo todo, influindo e atuando nas decisões mais do que figuras importantes do próprio Partido dos Trabalhadores. 
Boulos é o segundo convidado da série de entrevistas de CartaCapital com pré-candidatos à Presidência. O primeiro entrevistado foi Álvaro Dias, presidenciável pelo Podemos.
O pré-candidato não se engana: 2018 não é um ano eleitoral qualquer. Boulos e o PSOL terão de se dividir dentro da esquerda entre a plataforma de campanha do partido e os combates sociais que o período ainda reserva. O candidato mais jovem à presidência, com 35 anos, Guilherme afirma "que não faltará disposição para fazer campanha de chinelo rasgado", se for necessário.  
Confira os principais trechos da entrevista em vídeo com o candidato:
CartaCapital: Você vem do movimento social e nunca se candidatou a um cargo público. Qual o sentido dessa campanha para você? Guilherme Boulos: Levar a indignação (social) que o sistema político não ouve para dentro (da política institucional). 
CC: Qual a proposta do PSOL para a economia do país?GB: Qualquer programa econômico tem que ter como foco combater a desigualdade social do país. 
CC: É possível colocar esse programa em prática levando em conta as medidas tomadas pelo presidente Michel Temer, como a reforma trabalhista? 
GB: Não. É preciso chamar um referendo com a população e revogar todas as medidas desse governo. 
CC: E qual é o modelo de desenvolvimento capaz de fazer o Brasil voltar a crescer?
GB: É um modelo que não passa por cima dos povos tradicionais e aumente sua produção de tecnologia de ponta. Precismos sair do setor primário. 
CC: E como promover esse desenvolvimento com o atual composição do Congresso Nacional, que em boa medida defende setores tradicionais? 
GB: Temos que implantar um modelo de governabilidade que não seja com aliança com o PMDB, mas como o povo brasileiro. Queremos governar se for para jogar o PMDB na oposição, que é o que o partido sempre foi, mas desde sempre dá pitaco no governo de todo mundo sem eleger ninguém. 
CC: Nos últimos anos você se aproximou bastante do ex-presidente Lula e agora poderá concorrer com ele. Como fica essa relação agora? 
GB: Defendo que ele seja candidato. Não é uma luta só pelo Lula. É problema da sociedade brasileira que está com um direito essencial, que é o de participar do jogo político, comprometido. 
CC: Você defende uma coalizão da esquerda ao longo da campanha? Ela já está ocorrendo? 
GB: Esquerda precisa se colocar como alternativa a crise de representação, e não como parte dela. Muitas vezes a esquerda não consegue atingir as pessoas porque ela não se coloca efetivamente conta o establishment político. A nossa proposta é essa, ser uma campanha que vem de baixo e que não se dobra ao discurso do marqueteiro. 
CC: Você vem do movimento social e encara uma eleição em um dos momentos mais turbulentos da política nacional. Por que fazer essa opção agora? 
GB: Não é uma questão de escolha somente. Jogaram a política num abismo. Num momento como esse não dá pra se omitir. A gente tem que ir para o debate. 
CC: Como vai ser se dividir entre o plano programático da campanha e as lutas que o campo progressista deverá enfrentar conjuntamente? 
GB: A esquerda tem diferenças entre si e isso é legítimo. Podemos discordar estando dentro do mesmo plano de lutas. 
CC: Então você acredita que a esquerda está unida hoje?
GB: O momento político hoje é grave e nos exige uma unidade democrática. Mas uma unidade que seja capaz de criar um projeto de país sem jogar as diferenças para debaixo do tapete. 

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